sábado, 4 de setembro de 2010

           I

 Hoje acordei pensando em tudo. O que seria esse tudo? Não sei. Só sei que penso nisso, mesmo sendo nada. Se é que me entendem.
 Cresci rodeada de valores e princípios, dos mais banais aos mais fundamentais. E desde pequena os segui à risca. Mas parece que agora que era para eu estar ainda mais madura e os seguindo ainda mais à risca, estou os deixando passar. Talvez por pressão demais no passado: faça isso, seja isso, quero isso, quero aquilo, isso está errado então faça de novo, está certo mas pode melhorar... Se tiro três numa matéria escolar, fico de castigo, levo bronca e todos olham torto para mim. Se tiro oito, posso melhorar. Se tiro nota dez, não fiz mais que a minha obrigação. Isso desgasta, cansa, desmotiva. Quanto custa um elogio? Eu pago por um. Só me fale o valor.
 Atualmente nado contra a conterreza. Quero ser a melhor, para não precisar ouvir ninguém me elogiando. Quero me reconhecer, reconhecer por inteiro. Gritar meu mérito para o mundo e mostrar para todos os que não acreditaram em mim e me zombaram, que eu sou capaz de ir além de qualquer perspectiva humana.
 Poucas garotas de dezesseis anos hoje fazem o que faço. Ou elas já estão com um filho de dois anos para cuidar, ou preocupadas com o baile funk de sexta, ou procurando na loja uma calça de três números a menos que o manequim delas. Eu sou o oposto, não quero um namorado, não tenho filhos, não estou grávida e não pretendo ser mãe tão cedo. Não sou santa, pois nesse mundo é raro encontrar alguém com uns quatorze anos "pura", mas tenho juízo, pode não ser o que minha mãe gostaria que eu tivesse, mas eu tenho, tanto que passei dos quatorze sem me preocupar com fraldas.
 Eu estudo no período da manhã, faço o ensino médio. Trabalho no Fórum da Comarca de Embu. É um lugar maravilhoso. Primeiro emprego abençoado, por mim, só sairia de lá daqui uns cinco ou dez anos, mas infelizmente meu contrato acaba daqui há alguns meses. No Fórum fico cada vez mais instruída, pois todos os dias eu aprendo algo. Tanto na minha vida pessoal, como na profissional. Atendo Promotores, Advogados, Policiais, Guardas, Juízes... não atendo balcão de loja. Não estou desvalorizando quem trabalha nessa área, mas para um primeiro emprego lidando com esse tipo de gente é para se sentir honrada. Fora as leis, sentenças, o sistema interno e externo, artigos, processos, inquéritos e afins que ocorrem diariamente lá e eu posso visualizar para aprender. Quem sabe não sou eu amanhã advogando, representando o Ministério Público ou na cadeira da Juíza fazendo sentença.
 É um ambiente complicado para trabalhar, é bem pesado em questões emocionais, onde eu nunca fui muito equilibrada apesar de demonstrar o contrário, mas confesso que já me acostumei. Inicialmente eu me trancava no banheiro e chorava de soluçar, doía demais presenciar cenas como mães desamparadas chorando e gritando de desespero. Na mente a lição e a esperança, no coração a dúvida e a ausência. Enquanto seu filho dissertava sobre o que ocorrido ela era engolida pela vergonha, sua cabeça balançava por não se conformar com tais palavras, o lenço já não secava suas lágrimas, as mãos já eram frágeis a ponto de não controlar a inquietação... mas quando ele era levado de volta para a carceragem, grampeado ou com as mãos apenas cruzadas e cabeça baixa, parecia ir embora toda a sua vergonha e o único, ou o maior sentimento que permanecia intacto e se deixava transparecer pela face era a incerteza. De modo subjetivo, a incerteza. Incerteza do futuro dele, do futuro dela, do futuro de pessoas ligadas aos dois. A vergonha? Se ocultou diante de tantos pontos de interrogação. Anunciada as medidas aplicadas à ele, a mão parece tirar forças do além para agarrar aquele lenço já se despedaçando de tão molhado. Centenas de perguntas aparecem. O mundo de cada mulher que senta naquela cadeira parece acabar ali. Não tenho um pingo de pena desses menores que cometem atos infracionais, mas das mães... não sei explicar ao certo, mas dói mais em mim do que neles por elas. Eu me sinto mãe e filha nessas horas. Imagino a minha sentada naquela cadeira e todas essas sensações sendo sentidas por ela. Deus me livre! Não desejo isso para ninguém. Mas é aquela coisa, só roubando para saber o que é roubar, só se drogando para saber o que é se drgar, só engravidando para se sentir gestante, só preso para saber o que é liberdade. E é por isso que falar nesse momento para mim é até fácil, mas acontece que eu não sou como todas as pessoas. Porém, deixa isso para depois.
 No período noturno, estou cursando o Técnico em Contabilidade. São três semestres e é puxado demais. Faço parte da primeira turma do processo seletivo da Etec de Embu. Chegamos lá no primeiro dia com as cadeiras e carteiras praticamente ainda embaladas no papelão, não tínhamos lixeira nas salas de aula e jogávamos o papel higiênico que utilzávamos nos banheiros em sacos plásticos no chão. Nossa lousa chegou após mais ou menos um mês de aula. Imaginem o professor de matemática financeira ditando seus exercícios? Pois é, foi uma situação demasiadamente precária, mas creio que daqui dezoito meses valerá a pena o esforço. Nessa época fiquei analisando a situação e pensando: qual a magnitude em ser a primeira turma da etec, se nos faltavam todos os recursos necessários para ter uma aula produtiva? Sorte de quem viria depois, pois teriam tudo mastigado. Sempre nos diziam: Não é isso que conta, as primeiras turmas, os primeiros alunos é que farão a diferença, não vão querer saber das próximas e sim dos que abriram aquela escola técnica. Isso até que nos deu um pouco de alegria. Mas fomos os mais *** em relação a tudo la dentro. Nem cantina oficial tínhamos! Ainda bem que um casal vendia lanche para nós na portaria e um tempinho após uma moça pôde usar a cantina. Todo o esforço que fazíamos, todo o sono que combatíamos diariamente, compensou essa colocação? Nós estudamos, pagamos a prova, passamos, chegamos lá cheios de esperança nos olhos, que saíram com lágrimas. Tínhamos um data show emprestado, uma diretora emprestada, faltavam professores... que consideração aqueles quarenta alunos (me incluindo) de cada turma estavam tendo? Abriram para quê aquela escola? Porque era época de eleição? Puxa, então somos parte de um marketing fake?
 Isso me machucou todos os dias e fez o sono vencer a força de vontade. Nos primeiros dias eu o segurava de todas as maneiras possíveis e impossíveis, e em casa caía na cama. Duas semanas depois, cochilava alguns minutinhos em cada aula. Chegava num ponto que meus olhos ardiam e se fechavam, era algo meticulosamente automático. E será que era só o puro cansaço?...
 Ainda bem que passou. Mas foi uma fase complicada e para os males de alguns, liberei meu lado maçante, fastidioso e altamente crítico.
 Conclui o primeiro módulo de um curso de Gestão Administrativa aos sábado pelo Teletec das sete da manhã ao meio-dia e vinte. Talvez terá o segundo módulo. Eu espero que tenha. Mesmo desejando profundamente voltar a dormir até mais tarde aos sábados enquanto fazia o curso, quero continuar, pois fará uma vasta diferença futura em minha vida.
 Por hoje, é só. Uma grande - pequena introdução da minha rotina, da vida, do que faço. Posteriormente irei falando mais sobre tudo isso. Principalmente sobre o R. Vocês o conhecerão bem daqui um tempo. É só me acompanhar.


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